BRASIL, Sul, PORTO ALEGRE, Mulher, de 20 a 25 anos, Animais, Livros

 

   

    Duas Mãos Quatro Patas
  Bicho de Rua
  Sitio da Paty
  Protetores Voluntários
  Aprocan
  Onda-Animal
  Porta Voz Animal
  S.O.S. ViraLatas
  Masmorra Onírica
  Mostrador de Pensamento
  Francis


 

 
 

   

   


 
 
Ação Felina



Joujou

Pessoas, Coisas e Animais: Gilberto Freyre

    

  Recordo-me de Joujou como se ele tivesse sido quase pessoa de minha casa, quase membro de minha familia, no tempo em que eu, solteiro, um tanto boêmio e sempre em viagens pela Europa e pelos EUA, vivia ainda no Recife com minha velha gente vida de filha e não ainda de pai. Entretanto, era esse Joujou um animal e as vezes chegava a parecer simplesmente uma coisa: uma almofada branca e felpuda, perdida no silêncio nos meios-dias em algum recanto mais sombrio da sala de visitas: uma sala de visitas à antiga moda patriarcal.

  Já não me lembro porque se chamava Joujou. No seu caso era um desses  nomes irônicos que nos surpreendem não só em pessoas como em animais. Era gato e não gata. E gato másculo, grande, maduro, valente que de noite parecia um felpudo cão de raça que guardasse a casa. Enfrentava então cãos vadios e gatunos afoitos com uma superioridade magnífica não só de inteligência como de força. Guardava a casa como se fosse um cão não direi policial, mas militar e militante.

 

   



Escrito por LovCat às 02:15:44
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Ferreira Gullar

(Trechos do livro infantil:

Um gato chamado gatinho)

Dizem que gato

é muito ingrato

e indiferente:

só gosta da casa

não gosta da gente.

 

Mas é puro boato.

Quem isso inventou

não gosta de gato.

Pois o nosso Gatinho

tem verdadeiro horror

de ficar sozinho.

Prefere estar junto

do dono ou de alguém

que lhe queira bem.


 *  *  *  *  *


Se o gato sobreviveu

por ser muito cauteloso,

tem no entanto um ponto fraco:

é por demais curioso.

 

Por isso na Antiguidade,

já se dizia - e é fato -

 que a curiosidade

foi que matou o gato.

 

E entre os dois sentimentos

vive o gato a hesitar

mas chega sempre o momento

em que ele escolhe arriscar.



Escrito por LovCat às 21:33:52
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




SUAVE MARI MAGNO

(Machado de Assis: Do livro: Ocidentais)

 

 

Lembra-me que, em certo dia,
Na rua, ao sol de verão,
Envenenado morria
Um pobre cão.

Arfava, espumava e ria,
De um riso espúrio e bufão,
Ventre e pernas sacudia
Na convulsão.

Nenhum, nenhum curioso
Passava, sem se deter,
Silencioso,

Junto ao cão que ia morrer,
Como se lhe desse gozo
Ver padecer.

 



Escrito por LovCat às 19:12:41
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




 

«Um cão,

 

 

 

eu sempre disse,

 

 

 

é prosa;

 

 

Um gato

 

 

é um poema

 

 

 

Jean Burden

 



Escrito por LovCat às 02:34:13
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




                              Gato

           (Alexandre O'Neill,  Gato)

      

            

 

Que fazes por aqui, ó gato?

Que ambiguidade vens explorar?

Senhor de ti, avanças, cauto,

meio agastado e sempre a disfarçar

o que afinal não tens e eu te empresto,

ó gato, pesadelo lento e lesto,

fofo no pêlo, frio no olhar!

 

De que obscura força és a morada?

Qual o crime de que foste testemunha?

Que deus te deu a repentina unha

que rubrica esta mão, aquela cara?

Gato, cúmplice de um medo

ainda sem palavras, sem enredos,

quem somos nós, teus donos ou teus servos?

)Que fazes por aqui, ó gato?

Que ambiguidade vens explorar?

Senhor de ti, avanças, cauto,

meio agastado e sempre a disfarçar

o que afinal não tens e eu te empresto,

ó gato, pesadelo lento e lesto,

fofo no pêlo, frio no olhar!

 

De que obscura força és a morada?

Qual o crime de que foste testemunha?

Que deus te deu a repentina unha

que rubrica esta mão, aquela cara?

Gato, cúmplice de um medo

ainda sem palavras, sem enredos,

quem somos nós, teus donos ou teus servos?

 

   



Escrito por LovCat às 02:08:42
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




   Acerca de Gatos

(Eugénio de Andrade)

 

 

      Em Abril chegam os gatos: à frente 
      o mais antigo, eu tinha 
      dez anos ou nem isso, 
      um pequeno tigre que nunca se habituou 
      às areias do caixote, mas foi quem 
      primeiro me tomou o coração de assalto. 
      Veio depois, já em Coimbra, uma gata  
      que não parava em casa: fornicava  
      e paria no pinhal, não lhe tive 
      afeição que durasse, nem ela a merecia,  
      de tão puta. Só muitos anos  
      depois entrou em casa, para ser  
      senhora dela, o pequeno persa 
      azul. A beleza vira-nos a alma  
      do avesso e vai-se embora. 
      Por isso, quem me lambe a ferida  
      aberta que me deixou a sua morte  
      é agora uma gatita rafeira e negra 
      com três ou quatro borradelas de cal 
      na barriga. É ao sol dos seus olhos  
      que talvez aqueça as mãos, e partilhe  
      a leitura do Público ao domingo.

 

 

 



Escrito por LovCat às 02:04:11
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




             O gato

   (Vasco Graça Moura) 

 

 

       Vejo atrás dos vidros

       no jardim o gato

       siamês que passa

       entre os girassóis.

 

       na mesa da sala

       há mais girassóis

       num pote azul

       de faiança.

   

       às cinco da tarde

       a janela,

       a porta,

       estão fechadas, mas

 

       agora o gato

       vai passar na penumbra,

       entre os girassóis

       e a parede.

 

       é um sombra

       rapidamente

       imaginada

       sobre a mesa,

 

       que dita em ponto,

       de olhos límpidos,

       e percebe o jogo

       de espaços e que

 

       já regressou ágil

       se salto felino ao corpo do gato

       repentino lá fora.



Escrito por LovCat às 01:57:51
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Nuno Júdice, Zoologia: O Gato

 

 

Um gato, em casa sozinho, sobe

à janela para que, da rua, o

vejam.

 

O sol bate nos vidros e

aquece o gato que, imóvel,

parece um objecto.

 

Fica assim para que o

invejem — indiferente

mesmo que o chamem.

 

Por não sei que privilégio,

os gatos conhecem

a eternidade.

 



Escrito por LovCat às 01:50:20
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




                             Hans Jürgen Heise, Bensafrim

 

                             A manhã dá aos gatos

                             sapatinhos

                             de orvalho

 

 



Escrito por LovCat às 01:48:18
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Jorge Guíllen,  Gatos de Roma

 

                            

 

            Os gatos,

            não vagabundos mas sem ter um dono,

            ao sol adormecidos

            em ruas sem passeios,

            ou esperando uma mão generosa

            talvez entre ruínas,

            os gatos

            imortais de um modo tão humilde,

            desafiam o tempo, permanecem

            suportando bons e maus momentos,

            nada sabendo da História

            que levanta edifícios

            ou os deixa abismar-se entre pedaços

            belos ainda, agora nobres pedestais

            dessas figuras: livres.

            Olhar fixo de uns olhos muito verdes,

            em solidão, em ócio e luz distante.

            Olhos semicerrados, olhos quase chineses,

            loira a pele em calma iluminada.

            Erguido junto a um mármore,

            resto sobrevivente de coluna,

            alguém feliz e pulcro

            alia-se com a pata bem lambida.

            gatos. Frente à História,

            sensíveis, sérios, sozinhos, inocentes.

 

                      

                      



Escrito por LovCat às 01:45:42
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




            Fernando Pessoa

 

 

             Gato que brincas na rua

             Como se fosse na ama,

             Invejo a sorte que é tu

             Porque nem sorte se chama.

   

             Bom servo das leis fatais

             Que regem pedras e gentes,

             Que tens instintos gerais

             E sentes só o que sentes.

 

             És feliz porque és assim,

             Todo o nada que és é teu.

             Eu vejo-me e estou sem mim,

             Conheço-me e não sou eu.

 

 

            



Escrito por LovCat às 01:36:47
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Rainer Maria Rilke, Gato Preto

 

Um fantasma é ainda esse lugar

onde, soltando um som, pousas a vista;

mas neste pêlo negro o teu olhar

mais atento se confunde e despista.

 

como um louco que, no seu paroxismo,

às cegas bate o pé no escuro, tropeça,

e a quem de súbito absorve o abismo

almofadado da cela, e tudo cessa.

 

Todo o olhar que algum dia o tocou

parece então em si dissimular,

para sobre ele, ferino e agastado,

provocar arrepios e adormecer.

 

Mas eis que volta, de novo desperto,

o rosto, e, imóvel, o fixa no teu:

e tu redescobres o teu próprio olhar

no âmbar gemado das pedras dos seus

olhos redondos: estás aprisionado

como um insecto fóssil, já morto.

 

  



Escrito por LovCat às 01:33:28
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Dar Nome aos Gatos

T.S. Eliot

 


Dar nome aos gatos é uma questão difícil,
Não é nenhum jogo de férias;
Podeis pensar que sou doido varrido
Quando vos digo que um gato deve ter três diferentes nomes
Antes de mais nada, há o nome que a família emprega diariamente,
Tal como Peter, Augustus, Alonzo ou James,
Tal como Victor ou Jonathan, George ou Bill Bailey -
Todos eles sensatos nomes de todos os dias
Há nomes de maior fantasia se achais que soam melhor,
Alguns para cavalheiros, alguns para as damas:
Tais como Plato, Admetus, Electra, Demeter -
Mas todos eles sensatos nomes de todos os dias
Mas, digo-vos eu, um gato precisa de um nome que seja particular,
Um nome que seja peculiar, e mais dignificado,
Senão, como pode ele manter a cauda perpendicular,
Ou estender os bigodes, ou encarecer o orgulho?
De nomes desta espécie dou-vos um quórum,
Tais como Muskustrap, Quaxo ou Coripat,
Tais como Bombalurina, ou então Jellylorum -
Nomes que nunca pertencem a mais do que um gato
Mas, mais acima e mais além, falta ainda outro nome,
E esse é o nome que jamais
adivinhareis;
O nome que nenhuma investigação humana pode descobrir -
Mas o próprio gato sabe-o, e nunca confessará.
Quando se vê um gato em profunda meditação,
A razão, digo-vos eu, é sempre a mesma:
O seu espírito está em ávida contemplação
Do pensamento, do pensamento, do pensamento do seu nome:
Do seu inefável efável
Efanifável
Profundo e incontável singular Nome.


(Tradução de João Luís Barreto Guimarães)

*Bom

 A minha nova Bebê já tem todos os seus nomes: Os dados por mim Liz/Lisbela, e o outro só ela sabe...



Escrito por LovCat às 01:25:46
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




O Avesso das Coisas

Drummond

 

 

J

Jardim:

O jardim, convite à preguiça, exige trabalho infatigável.

 

Jardineiro: torturador aceito e remunerado.

 

 

M

Macaco:

Há no macaco uma inteligência não aproveitada que faz falta a muita gente.

 

Máquina:

Cansada de servir ao homem; a máquina enferruja e morre.

 

Mar:

Não é propriamente o mar que é imenso, mas a nossa insignificância diante dele.

 

Mundo:

Difícil compreender como no vasto mundo falta espaço para os pequenos.

 

N

Natureza:

A natureza não faz milagres; faz revelações.

 

A natureza é tão abrangente que comporta sua própria negação sem se importar com isso.

 



Escrito por LovCat às 00:35:02
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]





[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]