BRASIL, Sul, PORTO ALEGRE, Mulher, de 20 a 25 anos, Animais, Livros

 

   

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  Bicho de Rua
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  Mostrador de Pensamento
  Francis


 

 
 

   

   


 
 
Ação Felina



"Caviloso. Essa palavra saiu da moda mas deveria ser reconduzida, não existe melhor definição para a alma do felino. E certas pessoas que falam pouco e olham. Olham. Cavilosidade sugere esconderijo, cave — aquele recôncavo onde o vinho envelhece. Na cave o gato se esconde, ele sabe do perigo."
Lygia Fagundes Telles

"De todas as criaturas de Deus, somente uma não pode ser castigada. Essa é o gato. Se fosse possível cruzar o homem com o gato, melhoraria o homem, mas pioraria o gato."
Mark Twain

"São distantes, discretos, impecavelmente limpos e sabem calar. Falta mais alguma coisa para considerá-los uma excelente companhia?"
Rainha Maria Leszcynska

"Prefiro os gatos aos cães porque não há gatos policiais."
Jean Cocteau

Tão Lindo Quanto!

"A natureza dos gatos parece fundamentar-se no princípio de que nunca é ruim pedir o que se deseja."
Joseph Wood Krutch

"O gato possui beleza sem vaidade, força sem insolência, coragem sem ferocidade, todas as virtudes do homem sem vícios."
Lord Byron

"O gato é o único animal que conseguiu domesticar o homem."
Marcel Mauss



Escrito por LovCat às 03:15:29
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O gato
Donizete Galvão

O gato é secreto.
Tece com calma o mistério do mundo.

 

O gato é elétrico.
Pura energia a percorrer a espinha.

 

O gato é orgulho.
Sem humildade, jamais se entrega.

 

O gato é desejo.
Atração pela lua e telhados.

 

O gato é sagrado.
Olho no olho que brilha.

 

Um susto.
Parece que vemos Deus.

 



Escrito por LovCat às 03:00:21
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Perdão pelo sumiço, mas enfim voltei!

O gato
Ária para tenorino e flautim
Aníbal Beça

 

Para Carô Murgel

O gato aparece à noite
com seu esquivo silêncio
de passos bem calculados
num jogo de paciência
as garras bem recolhidas
na concha de suas patas

O gato passeia a noite
com seu manto de togado
como se fosse um juiz
de presas resignadas
a sua sentença de sombras
seu apetite de gula

O gato varre essa noite
facho de suas vassouras
vermelhas de olhos ariscos
e alcança nessa limpeza
o movimento mais presto
o guincho mais desouvido

Mais que perfeito no bote
(tal qual Mistoffelees de Eliot)
do pulo que nunca ensina
tombam baratas besouros
peixes de aquário catitas
ao paladar sibarita

Nada à noite falta ao gato
nem a presteza no salto
nem a elegância completa
do seu traje de veludo
para o baile dos telhados
roçando as fêmeas no cio

O gato é ato em seu salto
e a noite luz do seu palco:
ribalta luciferina
lunária ária da lua
na réstia de seus dois gozos
é felix feliz felino

Guardei a sétima estrofe
para o canto do mistério
das sete vidas do gato
e seu tapete aziago
nas noites de sexta-feira
há provas do seu estrago.

 



Escrito por LovCat às 02:51:09
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O Coelho e o Leão

(Augusto Monterroso)

 


Um célebre Psicanalista encontrou-se certo dia no meio da selva, semiperdido.

Com a força que dão o instinto e o desejo de investigação, conseguiu facilmente subir numa árvore altíssima, da qual pôde observar à vontade não apenas o lento pôr-do-sol mas também a vida e os costumes de alguns animais, que comparou algumas vezes com os dos humanos.

Ao cair da tarde viu aparecer, por um lado, o Coelho; por outro, o Leão.

A princípio não aconteceu nada digno de mencionar, mas pouco depois ambos os animais sentiram as respectivas presenças e, quando toparam um com o outro, cada qual reagiu como desde que o homem é homem.

O Leão estremeceu a selva com seus rugidos, sacudiu majestosamente a juba como era seu costume e feriu o ar com suas garras enormes; por seu lado, o Coelho respirou com mais rapidez, olhou um instante nos olhos do Leão, deu meia-volta e se afastou correndo.

De volta à cidade, o célebre Psicanalista publicou cum laude seu famoso tratado em que demonstra que o Leão é o animal mais infantil e covarde da Selva, e o Coelho, o mais valente e maduro: o Leão ruge e faz gestos e ameaça o universo movido pelo medo; o Coelho percebe isso, conhece sua própria força, e se retira antes de perder a paciência e acabar com aquele ser extravagante e fora de si, a quem ele compreende e que afinal não lhe fez nada.

*Nessa situação prefiro não tomar partido...



Escrito por LovCat às 01:50:53
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A COBRA

( http://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.phtml?cod=13567&cat=Contos )

 


O pai procurava pela filha no pátio e ficou paralisado ao vê-la brincando com uma cobra.
Sentiu que não poderia gritar para não assustá-la e à cobra, pois esta poderia feri-la.
As duas estavam se dando tremendamente bem.
A cobra se enrolava nos bracinhos, fazia cócegas e a criança ria.
O pai, calmamente, disse:
- Filhinha, coloca o bichinho no chão e vem para casa. É hora do lanche.
- Ah, papai, mas está tão bom brincar com esse bichinho!
- Deixa ela aí, filhinha, depois vocês brincam de novo.
- Está bem – respondeu a filha, colocando a cobra com carinho no chão.
O pai respirou aliviado e a mãe correu para pegar um pedaço de pau, ordenando:
- Vai lá e mata a cobra!
- Não – respondeu ele. –Ela não machucou a nossa filha. Merece viver!

 

*Não gostei do texto, mas faz sentido...



Escrito por LovCat às 01:42:01
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O RATO

(NELSON VITOR PEREIRA)

 

 

Ao abrir a porta, lá estava o rato. O animal asqueroso e arisco correu para debaixo do sofá. Duas alternativas: fingir não tê-lo visto, ou, perseguí-lo até o fim do mundo para exterminá-lo - livrar a Humanidade de sua maligna presença!

Uma das opções era mais cômoda, afinal éramos só nós dois  -  eu e o rato  -  ali, um canto desconhecido no planeta, longe de tudo e de todos...

Eu estava cansado, necessitado de usar o vaso, aliviar a bexiga, tomar um bom banho, relaxar...

Os ratos têm fama de hábeis fugitivos e a sua captura, com certeza, tomaria tempo, muito tempo! Tive, então, uma idéia. Fui até à geladeira, peguei um pedaço de queijo e o coloquei do lado de fora da casa, deixando a porta aberta.

No dia seguinte, após um dia massacrante,retornando à casa, ao colocar a chave na fechadura, ouvi uns guinchos. Eram os guinchos baixinhos e festivos do meu amigo camundongo, de quem já havia me esquecido. Poderia, agora, pisar-lhe a cabeça, mas não o fiz. Abri a porta e entrei. Ele poderia ter entrado comigo, pelo meu descuido, mas não, ficou ali, junto à vasilha que eu não recolhera. Olhei para o ratinho e tive a impressão que ele abanava o rabinho e que seus olhos brilhavam inocentes. O que eu fiz, então?

Ali estava uma criatura indefesa, confiante e ingênua  -  pronta para ser abatida, como freqüentemente acontece nas relações humanas...

Ainda tinha queijo na geladeira e, junto à outra vasilha, coloquei uma com água.

Hoje, antes de chegar em casa, passarei no mercadinho da esquina, pois estou sabendo que lá tem “queijins” de Minas.

 Será que o bichinho vai gostar?
 


Escrito por LovCat às 01:22:27
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 CÃO E HOMEM

(Mark Twain)

 

 

 

Se você recolher um cachorro que morre de fome e o tornar próspero, ele não o morderá. É esta aí a diferença principal entre um cão e um homem.

 



Escrito por LovCat às 01:09:47
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O Cão sem Plumas

(João Cabral)

 

“A cidade é passada pelo rio

como uma rua

é passada por um cachorro...

Aquele rio

era como um cão sem plumas...”

 

 

(Trecho)



Escrito por LovCat às 00:59:59
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Prova Falsa

(Stanislaw Ponte Preta)

 


Quem teve a idéia foi o padrinho da caçula - ele me conta. Trouxe o cachorro de presente e logo a família inteira se apaixonou pelo bicho. Ele até que não é contra isso de se ter um animalzinho em casa, desde que seja obediente e com um mínimo de educação.

— Mas o cachorro era um chato — desabafou.

Desses cachorrinhos de raça, cheio de nhém-nhém-nhém, que comem comidinha especial, precisam de muitos cuidados, enfim, um chato de galocha. E, como se isto não bastasse, implicava com o dono da casa.

— Vivia de rabo abanando para todo mundo, mas, quando eu entrava em casa, vinha logo com aquele latido fininho e antipático de cachorro de francesa.

Ainda por cima era puxa-saco. Lembrava certos políticos da oposição, que espinafram o ministro, mas quando estão com o ministro ficam mais por baixo que tapete de porão. Quando cruzavam num corredor ou qualquer outra dependência da casa, o desgraçado rosnava ameaçador, mas quando a patroa estava perto abanava o rabinho, fingindo-se seu amigo.

— Quando eu reclamava, dizendo que o cachorro era um cínico, minha mulher brigava comigo, dizendo que nunca houve cachorro fingido e eu é que implicava com o "pobrezinho".

Num rápido balanço poderia assinalar: o cachorro comeu oito meias suas, roeu a manga de um paletó de casimira inglesa, rasgara diversos livros, não podia ver um pé de sapato que arrastava para locais incríveis. A vida lá em sua casa estava se tornando insuportável. Estava vendo a hora em que se desquitava por causa daquele bicho cretino. Tentou mandá-lo embora umas vinte vezes e era uma choradeira das crianças e uma espinafração da mulher.

— Você é um desalmado — disse ela, uma vez.

Venceu a guerra fria com o cachorro graças à má educação do adversário. O cãozinho começou a fazer pipi onde não devia. Várias vezes exemplado, prosseguiu no feio vício. Fez diversas vezes no tapete da sala. Fez duas na boneca da filha maior. Quatro ou cinco vezes fez nos brinquedos da caçula. E tudo culminou com o pipi que fez em cima do vestido novo de sua mulher.

— Aí mandaram o cachorro embora? — perguntei.

— Mandaram. Mas eu fiz questão de dá-lo de presente a um amigo que adora cachorros. Ele está levando um vidão em sua nova residência.

— Ué... mas você não o detestava? Como é que arranjou essa sopa pra ele?

— Problema da consciência — explicou: — O pipi não era dele.

E suspirou cheio de remorso.

 

 

*A gente nunca sabe né...



Escrito por LovCat às 00:56:50
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Reis Magos

(José Tolentino Mendonça)

 

 

Uma mesa de plástico, branca
junto da tarde que morre
e renasce por pequenas paixões 
de repente estávamos sozinhos
as ilhas muito inacessíveis
agora que escureceu
o menor desejo teria um sentido delicado
os olhos velozes de um gato
viam coisas belas
lado a lado com os homens
pareciam quase não ter sofrido

a mesa estava encostada às janelas do café
e nós de forma desolada
ignorados, aturdidos, de passagem
não muito mais

procuro desse facto uma versão
que me não conduza à inconfidência

era uma mesa lisa, branca
uma razão soletrava ao acaso
a medida soberana do incerto

olhos velozes de um gato os teus
olhos

 



Escrito por LovCat às 22:30:46
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Poema do gato

(António Gedeão) 

Quem há-de abrir a porta ao gato 
quando eu morrer?

Sempre que pode 
foge prá rua, 
cheira o passeio 
e volta pra trás, 
mas ao defrontar-se com a porta fechada 
(pobre do gato!) 
mia com raiva 
desesperada.
Deixo-o sofrer 
que o sofrimento tem sua paga,
e ele bem sabe.

Quando abro a porta corre pra mim 
como acorre a mulher aos braços do amante. 
Pego-lhe ao colo e acaricio-o 
num gesto lento, 
vagarosamente, 
do alto da cabeça até ao fim da cauda. 
Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos, 
olhos semi-cerrados, em êxtase, 
ronronando.

Repito a festa, 
vagarosamente.
do alto da cabeça até ao fim da cauda. 
Ele aperta as maxilas, 
cerra os olhos, 
abre as narinas.
e rosna.
Rosna,  deliquescente, 
abraça-me 
e adormece.

Eu não tenho gato, mas se o tivesse
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?



Escrito por LovCat às 22:09:48
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Joujou

Pessoas, Coisas e Animais: Gilberto Freyre

    

  Recordo-me de Joujou como se ele tivesse sido quase pessoa de minha casa, quase membro de minha familia, no tempo em que eu, solteiro, um tanto boêmio e sempre em viagens pela Europa e pelos EUA, vivia ainda no Recife com minha velha gente vida de filha e não ainda de pai. Entretanto, era esse Joujou um animal e as vezes chegava a parecer simplesmente uma coisa: uma almofada branca e felpuda, perdida no silêncio nos meios-dias em algum recanto mais sombrio da sala de visitas: uma sala de visitas à antiga moda patriarcal.

  Já não me lembro porque se chamava Joujou. No seu caso era um desses  nomes irônicos que nos surpreendem não só em pessoas como em animais. Era gato e não gata. E gato másculo, grande, maduro, valente que de noite parecia um felpudo cão de raça que guardasse a casa. Enfrentava então cãos vadios e gatunos afoitos com uma superioridade magnífica não só de inteligência como de força. Guardava a casa como se fosse um cão não direi policial, mas militar e militante.

 

   



Escrito por LovCat às 02:15:44
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Ferreira Gullar

(Trechos do livro infantil:

Um gato chamado gatinho)

Dizem que gato

é muito ingrato

e indiferente:

só gosta da casa

não gosta da gente.

 

Mas é puro boato.

Quem isso inventou

não gosta de gato.

Pois o nosso Gatinho

tem verdadeiro horror

de ficar sozinho.

Prefere estar junto

do dono ou de alguém

que lhe queira bem.


 *  *  *  *  *


Se o gato sobreviveu

por ser muito cauteloso,

tem no entanto um ponto fraco:

é por demais curioso.

 

Por isso na Antiguidade,

já se dizia - e é fato -

 que a curiosidade

foi que matou o gato.

 

E entre os dois sentimentos

vive o gato a hesitar

mas chega sempre o momento

em que ele escolhe arriscar.



Escrito por LovCat às 21:33:52
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SUAVE MARI MAGNO

(Machado de Assis: Do livro: Ocidentais)

 

 

Lembra-me que, em certo dia,
Na rua, ao sol de verão,
Envenenado morria
Um pobre cão.

Arfava, espumava e ria,
De um riso espúrio e bufão,
Ventre e pernas sacudia
Na convulsão.

Nenhum, nenhum curioso
Passava, sem se deter,
Silencioso,

Junto ao cão que ia morrer,
Como se lhe desse gozo
Ver padecer.

 



Escrito por LovCat às 19:12:41
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«Um cão,

 

 

 

eu sempre disse,

 

 

 

é prosa;

 

 

Um gato

 

 

é um poema

 

 

 

Jean Burden

 



Escrito por LovCat às 02:34:13
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                              Gato

           (Alexandre O'Neill,  Gato)

      

            

 

Que fazes por aqui, ó gato?

Que ambiguidade vens explorar?

Senhor de ti, avanças, cauto,

meio agastado e sempre a disfarçar

o que afinal não tens e eu te empresto,

ó gato, pesadelo lento e lesto,

fofo no pêlo, frio no olhar!

 

De que obscura força és a morada?

Qual o crime de que foste testemunha?

Que deus te deu a repentina unha

que rubrica esta mão, aquela cara?

Gato, cúmplice de um medo

ainda sem palavras, sem enredos,

quem somos nós, teus donos ou teus servos?

)Que fazes por aqui, ó gato?

Que ambiguidade vens explorar?

Senhor de ti, avanças, cauto,

meio agastado e sempre a disfarçar

o que afinal não tens e eu te empresto,

ó gato, pesadelo lento e lesto,

fofo no pêlo, frio no olhar!

 

De que obscura força és a morada?

Qual o crime de que foste testemunha?

Que deus te deu a repentina unha

que rubrica esta mão, aquela cara?

Gato, cúmplice de um medo

ainda sem palavras, sem enredos,

quem somos nós, teus donos ou teus servos?

 

   



Escrito por LovCat às 02:08:42
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   Acerca de Gatos

(Eugénio de Andrade)

 

 

      Em Abril chegam os gatos: à frente 
      o mais antigo, eu tinha 
      dez anos ou nem isso, 
      um pequeno tigre que nunca se habituou 
      às areias do caixote, mas foi quem 
      primeiro me tomou o coração de assalto. 
      Veio depois, já em Coimbra, uma gata  
      que não parava em casa: fornicava  
      e paria no pinhal, não lhe tive 
      afeição que durasse, nem ela a merecia,  
      de tão puta. Só muitos anos  
      depois entrou em casa, para ser  
      senhora dela, o pequeno persa 
      azul. A beleza vira-nos a alma  
      do avesso e vai-se embora. 
      Por isso, quem me lambe a ferida  
      aberta que me deixou a sua morte  
      é agora uma gatita rafeira e negra 
      com três ou quatro borradelas de cal 
      na barriga. É ao sol dos seus olhos  
      que talvez aqueça as mãos, e partilhe  
      a leitura do Público ao domingo.

 

 

 



Escrito por LovCat às 02:04:11
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             O gato

   (Vasco Graça Moura) 

 

 

       Vejo atrás dos vidros

       no jardim o gato

       siamês que passa

       entre os girassóis.

 

       na mesa da sala

       há mais girassóis

       num pote azul

       de faiança.

   

       às cinco da tarde

       a janela,

       a porta,

       estão fechadas, mas

 

       agora o gato

       vai passar na penumbra,

       entre os girassóis

       e a parede.

 

       é um sombra

       rapidamente

       imaginada

       sobre a mesa,

 

       que dita em ponto,

       de olhos límpidos,

       e percebe o jogo

       de espaços e que

 

       já regressou ágil

       se salto felino ao corpo do gato

       repentino lá fora.



Escrito por LovCat às 01:57:51
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Nuno Júdice, Zoologia: O Gato

 

 

Um gato, em casa sozinho, sobe

à janela para que, da rua, o

vejam.

 

O sol bate nos vidros e

aquece o gato que, imóvel,

parece um objecto.

 

Fica assim para que o

invejem — indiferente

mesmo que o chamem.

 

Por não sei que privilégio,

os gatos conhecem

a eternidade.

 



Escrito por LovCat às 01:50:20
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                             Hans Jürgen Heise, Bensafrim

 

                             A manhã dá aos gatos

                             sapatinhos

                             de orvalho

 

 



Escrito por LovCat às 01:48:18
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